Ofereceu uma pedra

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ahad1020
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Ofereceu uma pedra

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As luzes falharam antes da primeira fala. Alton sorriu, como quem reconhece o inimigo invisível.
Sabotagem número um: café trocado por vinagre. A produção jurou que foi acidente.
O botão da camisa caiu no meio da cena. Risos. Não ensaiados.
Alguém trocou o roteiro por páginas de um manual de ventilador.
O microfone chiava toda vez que ele falava “redenção”. Coincidência ou maldição sonora?
O sapato colado ao palco. Literalmente. Supercola. Pegadinha ou vingança?
Alton limpava o suor com um lenço que deixava glitter na testa.
O refletor caiu a 30 centímetros de distância. A plateia aplaudiu, achando que era efeito especial.
Sabotagem número sete: colocaram pimenta no batom cenográfico.
Um papel dizia “Boa sorte, fracassado” colado no espelho do camarim.
O diretor sumiu antes do início. Deixou uma mensagem: “Confia.”
O cenário estava montado ao contrário. A sala virou floresta.
Alguém programou uma música funk no momento dramático.
Alton seguiu, como se fosse parte da encenação.
O público adorou. Pena que não era intencional.
A cadeira em cena quebrou. Alton caiu. A dignidade ficou.
O celular de alguém tocou com Base de dados de números de telefone um áudio: “Esse show é uma merda.”
A sabotagem não vinha só de fora. Vinha de dentro também.
A autossabotagem era o produtor silencioso.
Alton esqueceu o texto, mesmo com o ponto eletrônico gritando cada palavra.
A maquiagem derreteu e escorreu no olho. Chorava literalmente com tinta.
O figurino era de outro espetáculo. Usava roupa de astronauta em cena sobre divórcio.
“Improviso é arte”, disse, tentando justificar.
Mas ninguém acreditou. Nem ele.
A atriz principal trocou as falas. Criou uma nova trama.
Alton virou coadjuvante na própria peça.
Sabotagem número quinze: alguém roubou a maçã cenográfica.
Precisava da maçã para simbolizar perdão.
Ninguém entendeu. Aplaudiram mesmo assim.
Um drone caiu no palco. Quase acertou seu pé.
A sabotagem virou espetáculo.
O espetáculo virou sabotagem.
Os bastidores riam enquanto Alton suava.
A equipe apostava quantas falas ele erraria.
O encanamento estourou no camarim.
Sabotagem número vinte e dois: colocaram areia no spray de cabelo.
Cada cena era uma armadilha emocional.
No telão, imagens de um outro show.
De outro artista.
Mais famoso.
Sabotagem número vinte e oito: cancelaram a sessão no site, mas venderam ingressos físicos.
A plateia veio por engano.
Esperavam um stand-up.
Receberam existencialismo.
Alguém jogou uma flor. Era de plástico. E tinha espinhos.
Sabotaram até o papel higiênico.
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