“Isso é proposital?”, perguntou um jornalista.
Alton respondeu: “Só se for da vida.”
No ensaio, tudo funcionava.
No palco, era um campo minado.
O texto ficou preso no projetor.
Mostraram slides da infância de Alton sem permissão.
Ele chorou. Plateia pensou que era atuação.
Sabotagem número trinta e cinco: sinal de Wi-Fi bloqueado.
O show não pôde ser transmitido.
O patrocinador surtou.
Mandaram uma pizza como desculpa.
Veio fria. E com abacaxi.
A música final foi substituída por uma marcha fúnebre.
Alguém programou “erro” no telão.
Uma criança perguntou: “Isso é parte do show?”
Ninguém respondeu.
Na coxia, as falas estavam embaralhadas.
Uma atriz citou Shakespeare no meio de uma cena de supermercado.
Alton improvisou: “Ser ou não ser... cliente frequente.”
Ninguém riu.
O som do público era Loja o silêncio da dúvida.
Sabotagem número quarenta e dois: cortaram a luz do camarim no final.
Saiu no escuro, tropeçando no tapete.
Quase caiu no colo do crítico da Folha.
Crítico escreveu: “Tenso, cru, caótico. Provavelmente involuntário.”
A sabotagem final foi emocional.
O público levantou para sair antes do aplauso.
Alton agradeceu sozinho.
A cortina não fechou.
Ficou ali, congelado.
Esperando.
Alguém gritou: “Volta pra ensaiar!”
Ele acenou. E ficou.
Na saída, havia um cartaz: “Não garantimos sentido, só presença.”
O cachorro da bilheteira latiu. Apoiava ou criticava?
Alton não sabia mais.
Sabotagem número cinquenta: alguém vendeu o roteiro original no Mercado Livre.
Nota: “Usado, quase novo, completamente confuso.”
A mãe de Alton ligou.
“Filho, você parece bem... cansado.”
“É parte do espetáculo, mãe.”
Desligou antes da lágrima cair.
Sentou-se no chão, ao lado do extintor de incêndio.
Quis escrever um novo texto: “A Grande Sabotagem.”
Mas a caneta falhou.
Até ela.
“Talvez seja o universo testando minha perseverança”, pensou.
Ou talvez só má gestão mesmo.
Decidiu continuar.
Porque até a sabotagem, se bem usada, vira cena.
Ou cicatriz.
Ou combustível.
Mas sempre deixa marca.
E assim, o pós-show virou lenda.
Lenda de um homem contra cem formas de falhar.
E ainda assim, levantar.
Mesmo sem cortina.
Mesmo sem plateia.
Mesmo que tudo conspire contra.
Porque no fundo, o palco é onde ele ainda respira.